A sociedade que nasceu liberal

Publicada em: 11/05/2009

Legalização do aborto, do casamento homossexual, da prática de sexo ao ar livre em parques públicos, da eutanásia, da prostituição e até do consumo – “controlado”, diga-se de passagem – de drogas leves (maconha e haxixe) dentro de bares licenciados… Tudo isso, à primeira vista, pode até soar aos mais conservadores como uma série de loucuras. Mas são medidas longe de pertencerem à obra do insano. Na verdade, são fruto de políticas sociais liberais que tornam Amsterdã a cidade mais polêmica, tolerante e evoluída do mundo. Só que fique bem claro: para tudo há regras e limites, com os quais só um povo – tradicionalmente avançado no modo de agir e pensar –, é capaz de conviver respeitosamente.

Sob o lema “viva e deixe viver”, a capital do país carrega um espírito libertário que não vem de agora, e sim dos últimos séculos, graças a uma história de independência, revolução e ousadia. Em meio às guerras religiosas na Europa do século XVI, com a perseguição do temido Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, os antigos holandeses já optaram por prestigiar a liberdade na chamada República das Províncias Unidas, formada por sete províncias e várias cidades independentes.

Ao se rebelar contra uma tirania espanhola teológico-monárquica da época, os libertários neerlandeses conceberam e organizaram uma sociedade baseada no direito à cidadania, na harmonia e bom convívio entre diferentes raças e religiões. A predominância civil era de judeus, católicos e cristãos. Todos queriam se ver livres dos desmandos da Igreja. “A maioria dos homens imagina que vivem como entendem”, descreveu o famoso filósofo holandês Baruch Spinoza, ao explicar a formação de seu estado.

Depois da autonomia conquistada, iniciou-se um período de ouro e riquezas por meio da colonização e das desbravadoras navegações mercantis, que moldaram a identidade cultural da nação. Na maré de prosperidade do século XVII, Amsterdã também foi o primeiro lugar no mundo a oferecer a liberdade de imprensa e de pensamentos. Muitos filósofos e pensadores da Europa mudaram-se para a acolhedora cidade, onde publicaram as principais obras iluministas da Europa. A Enciclopédia, de Diderot, grande instrumento da revolução intelectual do século XVIII, é um bom exemplo.

Com um alto grau de desenvolvimento humano já adquirido desde então, a sociedade civil holandesa ganhou novos contornos pluralistas em razão das revoluções cultural e sexual dos anos 60 e 70, que ditaram moda nas principais capitais mundiais. Ao mesmo tempo, novas correntes imigratórias – em especial de negros e árabes –, ampliaram sua diversidade de tolerância e comportamento.

Rompido o novo milênio, Amsterdã tornou-se a primeira metrópole a lançar-se na globalização moderna, com ideias e práticas inovadoras à frente de outros grandes centros urbanos. No futuro, certamente continuará a embasbacar o mundo, com mais atitudes pioneiras e inéditas.


Leia Mais

Outros artigos ver lista completa