Não é de hoje que conhecemos a máxima “não fale com estranhos”, certo?“. Da primeira recomendação da mãe quando éramos crianças até o noticiário de hoje em dia esta frase e mandamento não pára de martelar em nossas cabeças. Ou melhor, não parava. Agora chegou a minha vez de atrapalhar tudo e seguir na direção contrária: meu caro, minha cara, se você estiver fora do país para estudar, mergulhar na cultura local e, principalmente, aprender um outro idioma, é hora de fazer aquilo que sempre sonhou: sim, fale com estranhos.
Vale aqui também a primeira ressalva: calma. Estranho numas, né? Tipos mal encarados, com olhos estatelados, cheirando à bebida, maltrapilhos, preconceitos ao lado, na maioria das vezes são estranhos meeesmo. No melhor estilo daqueles que sua mãe vivia te apavorando.
Fora isso, uma das principais causas de frustração em viagens de estudos internacionais é o tradicional “não aprendi a língua de lá”. Tinha um amigo que costumava brincar dizendo que foi a um determinado país, não aprendeu o idioma de lá, esqueceu o daqui e voltou mudo. Exageros à parte, isso só acontece quando viaja e fica aqui ao mesmo tempo. Impossível? Não, quando ao invés de trocar palavras com um estranho, você vive em guetos, cercado ou por brasileiros legítimos ou por gringos brazucas que adoram samba, Pelé, Ronaldo ou Romário e que transformam você em uma escola de português ambulante: entre uma cai-pi-r-nho “é assim que eu falar aquele bebido em brasileira?” e outra, você mais ensina que aprende. E se acha o tal. Não, no e nananinanã.
Especialistas em viagens internacionais e em aprendizado de línguas no exterior costumam dizer que a escola propriamente dita, a tradicional, aquele curso no qual você está matriculado é um suporte, um bom, necessário e importantíssimo suporte àquilo que acontece com você no dia a dia, nas ruas.
A primeira coisa acertada a fazer quando devidamente instalado onde você ficará hospedado é pegar dois ou três pedaços de papel, escrever o endereço de lá, telefone, todos os seus contatos na língua local, na sua e em inglês (se a língua local for o inglês, o terceiro papel, óbvio que é desnecessário, né?) enfiar nos bolsos e sair por aí. Devidamente informado sobre os bairros mais perigosos, passe longe deles, mas entre em shoppings, lojas, troque idéias em restaurantes, bares, mesmo que seja apenas pedindo um copo de água. Comece com o tradicional “que horas são, por favor?” (de preferência se tiver lembrado de sair sem o relógio) e vá em frente. Erre, muito. Dê risada de suas próprias mancadas, esqueça o sotaque e a autocrítica (que eu prometo tratar melhor em um próximo texto por aqui) , afinal, salvo engano, foi para aprender que você deixou sua casa, seus familiares e amigos a milhas de distância, não?
Mestre viajou a primeira vez aos seis meses de idade e levou uma bronca da mãe ao trocar um gugu dada com um bebê estranho.


